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Como a tuberculose surgiu – e porque é cercada de preconceito

De “doença da alma romântica” a “peste branca”, a tuberculose tornou-se um problema de saúde pública mundial fortemente marcado pelo preconceito e pelo estigma social no Brasil e no mundo



Em sua juventude, Casimiro de Abreu desejou "uma doença grave, perigosa”, pois já vivia cansado da “monotonia da boa saúde”. Queria ele “a tísica com todas as suas peripécias, queria ir definhando liricamente, soltando sempre os últimos cantos da vida”.


O desejo do poeta brasileiro pode parecer estranho, mas, na época, a tuberculose era vista como uma “doença da alma”, que acometia pessoas de personalidade sensível, como pintores e poetas.


Essa forma de enxergar a tísica (como era chamada a tuberculose inicialmente) teve início na Europa do século 19. A verdade, no entanto, é que a tuberculose não se desenvolvia especificamente entre a classe artística por conta de uma “questão de alma”.


Muitos artistas desenvolviam a enfermidade porque viviam em condições precárias de alimentação, higiene, moradia e trabalho – à medida que os cientistas compreenderam isso, deixaram de lado o entendimento romantizado.


Por outro lado, criou-se uma percepção distorcida sobre os contaminados. A classe médica acreditava que a doença se desenvolvia por mau comportamento. Os tísicos, então, foram vistos como degenerados: pessoas promíscuas, hipersexualizadas, sem cuidado com a saúde – que transgrediam regras morais e que, por algum tipo de punição, acabavam adoecendo até a morte.


A doença ficou conhecida como “peste branca”: um mal que perturbava a sociedade e que deveria ser aniquilado. Essa nova forma de encarar a tuberculose se espalhou rapidamente no Brasil.


Marginalizada e sem assistência do estado, a doença fazia mais e mais vítimas. Os tuberculosos passaram a representar uma ameaça porque podiam contagiar qualquer um – daí surgiu o preconceito e o estigma social que rondam o imaginário popular até hoje.


Assistência à saúde


Fundada em 1900, a Liga Brasileira contra a Tuberculose inaugurou os primeiros dispensários – locais de atendimento gratuito para consulta, profilaxia e educação sobre higiene voltado à tuberculose.


Em 1908, cientistas franceses conseguiram produzir uma vacina capaz de prevenir formas graves da infecção, como tuberculose miliar e tuberculose meníngea. A vacinação, no entanto, só é eficaz quando aplicada em crianças.


Em 1920, surge a Inspetoria de Profilaxia da Tuberculose: a primeira instituição do governo criada para tratar especificamente dos tuberculosos. Na sequência são criados mais dispensários e sanatórios.


Como não existia um tratamento efetivo, o repouso em locais com clima adequado era a opção possível.


Nos sanatórios, localizados em regiões de clima seco, as pessoas com tuberculose encontrariam um local adequado para seu desfecho clínico.


Ainda assim, o espaço era restrito à estrutura física dos sanatórios. Em lojas, restaurantes, clubes e bares vizinhos, cartazes anunciavam que a presença dos moradores dos sanatórios era proibida.


Os sanatórios populares, que abrigavam pessoas que não podiam pagar pela hospedagem, determinavam regras para vestuário, comportamento e rotina.

Carta da Inspetoria de Profilaxia da Tuberculose: tuberculosos são vistos como promíscuos – pessoas que transmitem uma doença que precisa ser aniquilada.

Já os sanatórios destinados às famílias bem-sucedidas eram chamados de “mansões da saúde”. Por preços altíssimos, acolhiam homens e mulheres que tinham os “pulmões fracos” para uma confortável estadia em suas dependências. Aqui, os termos “tuberculose” e “tuberculoso” eram evitados.


Vista da Vila Jaguaribe, em Campos do Jordão (SP), onde ficavam os quartos locados para as famílias que podiam pagar por uma hospedagem sofisticada.

Passada a época das políticas higienistas, que culpavam o doente por seu diagnóstico, surgiram as medidas estratégicas para o enfrentamento da doença no Brasil.


O Programa Nacional de Controle da Tuberculose (PNCT) estabeleceu uma política de ação com padrões técnicos e assistenciais definidos, promovendo ações preventivas, distribuição gratuita de medicamentos e controle de agravos. Desta forma, o acesso ao tratamento e à possibilidade de cura tornou-se universal à população brasileira.


Nos anos seguintes, estratégias para adesão ao tratamento, como o acolhimento e o tratamento diretamente observado (TDO), começaram a ser orientadas para promover um acompanhamento efetivo, que levasse à cura. Aos poucos, termos como “tísico” e “tuberculoso” deixam de ser utilizados por conta da carga de preconceito e estigma que carregam desde o século 19.


LEIA MAIS: Adesão ao tratamento é fundamental para a cura da tuberculose


O conhecimento científico permitiu encontrar tratamentos mais eficazes e menos agressivos, que oferecem quase 100% de chance de cura. Apesar de ser evitável e tratável, a tuberculose ainda preocupa: é a principal causa de morte por doença infecciosa no mundo.


Atualmente, a TB está concentrada entre populações vulneráveis. Ou seja: pessoas que, por conta de suas condições de vida, estão mais expostas ao risco de contaminação e desenvolvimento da doença, como pessoas privadas de liberdade, pessoas em situação de rua, pessoas que vivem com HIV e populações indígenas.

Poema de Manuel Bandeira na Cadeia Pública de Porto Alegre: da época em que a doença era romantizada só sobraram os registros.

Além de ter mais chances de desenvolvimento da tuberculose, esses grupos têm que lidar com o preconceito social sobre si e sobre a doença.


Considerando esses fatores, o projeto Prisões Livres de Tuberculose foi desenvolvido para detectar e tratar precocemente a TB no ambiente prisional. O projeto é resultado de um termo de cooperação técnica entre o Departamento Penitenciário Nacional (Depen), ligado ao Ministério da Justiça e da Segurança Pública; e a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz); com a colaboração técnica do Programa Nacional de Controle da Tuberculose (PNCT).


A partir de estratégias de comunicação e de educação em saúde, o projeto visa difundir conhecimento sobre a doença entre pessoas privadas de liberdade e familiares, profissionais de saúde e profissionais de segurança, para que todos atuem ativamente no controle e no fim do estigma relacionado à TB. Ao superar o fim do preconceito com a tuberculose, a procura pelo atendimento médico em caso de suspeita, bem como o cumprimento do tratamento será mais aceitável. Desta forma, será possível avançar ainda mais efetivamente para superar a doença entre toda a sociedade, no Brasil e no mundo.


Fontes - História social da tuberculose e do tuberculoso: 1900-1950, de Claudio Bertolli Filho. - A tuberculose ao longo dos tempos, de Helen Gonçalves. - Portal do Ministério da Saúde. Disponível em: http://saude.gov.br.

LEIA MAIS: Como funciona a humanização no atendimento de pessoas com tuberculose

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Campanha Tuberculose - Informação e Tratamento Curam

Um projeto realizado através do Ministério da Justiça e Segurança Pública e FIOCRUZ com a cooperação técnica do Programa Nacional de Controle da Tuberculose.

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